T&D360 News - Ed 40

Está na hora de enterrar mais um mito.

Gustavo Brito

·

23 de mar. de 2026

1. A pergunta que a gente deveria fazer antes de qualquer coisa

Se você trabalha com T&D, já deve ter ouvido ou dito algo assim:

“Esse grupo é muito visual, hein…” “Fulano é mais auditivo, não adianta mandar texto.” “Tem de adaptar o curso para cada estilo de aprendizagem.”

Parece cuidadoso. Parece sofisticado. Parece ciência. Não é.

Enquanto seguimos discutindo se as pessoas são “visuais, auditivas ou cinestésicas”, quase ninguém se faz a pergunta básica:

Como, afinal, as pessoas aprendem?

Se a resposta a essa pergunta não estiver clara, todo o resto (trilhas, jornadas, catálogos, métricas) corre o risco de virar uma grande coreografia bem-intencionada em cima de uma base frágil.

2. O que a ciência diz sobre aprendizagem (sem magia, sem modinha)

Quando a gente olha para a neurociência séria, o quadro é bem menos “místico” do que vendem por aí...e bem mais interessante.

O cérebro aprende por neuroplasticidade:

Reorganização de redes neurais em resposta a experiências significativas, repetidas e desafiadoras, em um ambiente minimamente seguro.

Não é o “meu estilo” que manda. É o conjunto:

  • qualidade da atenção;

  • sentido pessoal do que está sendo aprendido;

  • nível adequado de desafio (nem infantil, nem impossível);

  • relações de confiança com quem ensina e com quem aprende junto;

  • oportunidade de prática com feedback;

  • sono, saúde, ambiente protegido e estimulante.

Em outras palavras, o que impulsiona aprendizagem não é encaixar cada pessoa numa caixinha fixa, mas desenhar experiências e contextos que favorecem neuroplasticidade.

A boa notícia é que isso é trabalhável. A má notícia é que não cabe num slide com três ícones bonitinhos de “visual, auditivo, cinestésico”.

3. O neuromito dos estilos de aprendizagem: por que ele pega tão fácil

A ideia de que existem pessoas de “estilo visual”, “estilo auditivo”, “estilo cinestésico” é sedutora. Não é à toa que pegou.

Ela parece respeitar diferenças individuais. Ela dá uma sensação de personalização. Ela entrega uma ilusão de controle: “descobri seu estilo, agora tudo vai fluir”.

O problema é que as revisões sérias de pesquisa mostram outro quadro. Adaptar o formato de ensino ao suposto estilo do aluno não gera ganho consistente de aprendizagem.

O que funciona de forma mais robusta é bem mais pé no chão, isto é, misturar formatos sensoriais; alternar foco intenso com pausas; criar espaço real para prática ativa, explicação com as próprias palavras, resolução de problemas, colaboração; estimular que a pessoa entenda, por experiência, como aprende melhor em tarefas diferentes, em vez de dizer a ela, de fora, qual “é” o seu estilo fixo.

Criticar o neuromito não é atacar quem o usou com boa intenção. Quase sempre, ele foi adotado por gente que queria cuidar melhor dos aprendizes. O convite agora não é para abandonar o cuidado, e sim para atualizar a base, com base em ciência de verdade.

4. Como o mito dos estilos atrapalha T&D nas empresas brasileiras

Quando a gente olha para culturas de aprendizagem em empresas brasileiras, o cenário é de transição.

O tipo mais comum identificado é a cultura autodirigida moderada: gente começando a combinar autonomia com momentos coletivos, híbrido aqui, digital ali, presencial acolá. Ninguém está com uma cultura super consolidada. Todo mundo está experimentando.

Nesse terreno em movimento, o mito dos estilos vira um atalho explicativo tentador.

Em vez de falar de desenho instrucional frágil, falta de prática, liderança que não apoia, ambiente que puni erro, a conversa escorrega para frases como:

“Esse público aqui é muito visual…” “Esse pessoal é mais prático, não adianta teoria…”

É confortável, porque desloca o problema para o indivíduo. É perigoso, porque naturaliza dificuldades que são de contexto, não de “tipo de aprendiz”.

Fica mais fácil dizer que “as pessoas não aprendem porque são X ou Y” do que encarar que a trilha foi mal desenhada; que não houve tempo nem espaço para prática; que a liderança sabota o uso do que foi aprendido; que o ambiente é hostil ao erro.

Mitos são ótimos para aliviar culpa. Péssimos para melhorar prática.

5. Fugindo da alucinação coletiva:

Se a pergunta não é “qual é o seu estilo?”, qual deveria ser?

Aqui vão algumas que fazem mais sentido:

Como é que essa pessoa, nesse contexto, com esse trabalho, consegue aprender de forma significativa?

Que tipo de experiência combina melhor com a tarefa que ela tem de desempenhar?

Como é que a jornada alterna exposição à experiência de aprendizagem com aplicação no trabalho; feedback de pares e líderes; discussão; pausa; revisita?

Como estão as condições de base que a neurociência já apontou como críticas?

Segurança psicológica, isto é, aqui dá para errar, testar, ajustar?

Há tempo protegido para aprender: ou tudo é “faz no horário de almoço”?

Trocar neuromito por ciência não é tirar poesia da aprendizagem; é tirar autoengano da gestão de T&D.

6. E as diferenças individuais, vão para o lixo?

Não.

Abandonar o mito dos estilos não significa tratar todo mundo igual. Significa parar de acreditar que a diferença está resolvida com um rótulo fixo.

Em vez de dizer “você é visual”, T&D pode apoiar as pessoas a desenvolver metacognição:

Perceber, na prática, como aprendem melhor em cada situação.

Numa tarefa analítica, talvez precisem de leitura profunda e silêncio. Numa tarefa relacional, talvez aprendam mais discutindo casos. Num software novo, talvez misturem tutorial, tentativa e erro, e ajuda de um colega.

Diferença e preferência individual existe, mas é dinâmica, contextual e multifatorial. Tratá-la como se fosse um horóscopo pedagógico é pouco para o século XXI.

7. O que muda, na prática, para quem desenha educação corporativa

Se você está do lado de cá, desenhando ou contratando soluções de aprendizagem, algumas consequências vêm quase que de brinde:

Parar de gastar energia classificando pessoas em estilos e usar essa energia para desenhar experiências alinhadas ao que já sabemos sobre como o cérebro aprende, para cuidar da cultura de aprendizagem, quero dizer, o que se recompensa, o que se pune, como a liderança fala de aprender, ou ainda, garantir que toda iniciativa tenha espaço para prática, feedback e reflexão, não só exposição a conteúdo.

Exigir de fornecedores mais do que “mix de recursos visuais, auditivos e cinestésicos”.

Perguntar em que evidências vocês se baseiam para esse desenho? Como essa solução garante prática real, e não só consumo? Como ela considera o contexto social e cultural da empresa, não só o indivíduo isolado?

E, talvez o mais importante:

Educar a organização como um todo para um novo imaginário de aprendizagem.

Enquanto o consenso implícito for “se eu não aprendi, a culpa é de quem ensinou mal”, seguimos presos ao mito da transmissão mágica. A alternativa é construir, aos poucos, a ideia de que:

educação oferece oportunidades; aprendizagem nasce do encontro entre essas oportunidades e o esforço de quem aprende.

Não é um cartaz que resolve isso. É prática, repetida, coerente.

8. A pergunta que vale mais do que qualquer “tipo de aprendiz”

Se você pudesse tirar da sua operação de T&D, hoje, todas as ferramentas, teorias e jargões que não têm sustentação sólida, o mito dos estilos de aprendizagem sairia junto?

Se a resposta for “eu ainda não sei”, talvez valha começar por aí:

Ao invés de classificar aprendizes, classificar as próprias crenças sobre aprendizagem como evidência, hipótese ou alucinação coletiva simpática.

A partir daí, a chance de desenhar educação corporativa que respeita as pessoas e a ciência, ao mesmo tempo, aumenta bastante.

E, convenhamos, já passou da hora.

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