
T&D360 News - Ed 14
Imaginários perigosos
E as consequências de confundir alhos e bugalhos.

Gustavo Brito
·
8 de set. de 2025

CUIDADO COM O QUE DESEJA
Outro dia fui impactado por um vídeo desses rápidos que contava a história de um estagIArio, isto é, de um agente de IA que cumpria com a maioria das tarefas ordinárias do dia a dia de seu criador, esse sim, um estagiário de carne e osso.
No vídeo, a narradora dizia algo como:
- Como pode o Pedro, nosso estagiário, fazer tanta coisa e ser tão produtivo e ainda arrumar tempo para jogar beach tennis, ir na academia e conseguir almoçar sem pressa?
Vocês devem imaginar a resposta...mas caso não consigam, eu conto. A resposta é que o Pedro criou um estagIArio para fazer a maior parte do trabalho dele e por isso ele consegue produzir tanto e assim, encontrar tempo para cuidar de si mesmo.
Baita promessa, né? Coloque uma IA para fazer seu trabalho e vá ser feliz na vida.
Mal sabe Pedro que seu empregador pensa substituí-lo pela sua criação em breve. Certeza que pedro não leu o Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, do contrário saberia que 40% dos empregadores já planejam eliminar cargos de entrada (estagiários, analistas) em suas empresas e usar somente IA.
weforum.org
How AI is reshaping the career ladder, and other trends in jobs…
O problema é que essa promessa é mais antiga do que guaraná de rolha. E nunca se concretiza. É um conto do vigário que só cai quem não tem pensamento crítico. Não é preciso ir muito longe para encontrar essas previsões de libertação. Em 1981 um tal de Steve Jobs previu que os computadores iriam nos libertar das tarefas mais mundanas, mais ordinárias, abrindo espaço para a criatividade humana, abrindo espaço para uma vida mais leve. BULLSHIT. BULLSHIT daquelas sabe? Quase 45 anos depois e cá estamos, nos sentindo encurralados, com burnout, stress, correndo atrás de pagar boletos, fazendo tarefas estúpidas.
O imaginário de emancipação do trabalho, de liberação do trabalho pelas máquinas é um dos sonhos mais antigos da humanidade. E um dos mais bestas também. Não pelo fato das máquinas não conseguirem nos substituir...não! Elas conseguem e fazem isso muito bem. O problema é que máquinas não consomem, não vão ao shopping, não "fazem a economia capitalista girar". Quem tem de fazer isso somos nós. E para isso precisamos de...DinDin!
O Pedro, lá do vídeo que citei, só é considerado um cidadão produtivo e de valor na nossa sociedade se ele for capaz de consumir. Para isso, só tem dois jeitos:
Pedro precisa de um emprego que lhe garanta um salário que lhe garanta um crédito que lhe garanta uma dívida por consumo acima de seus ganhos;
Pedro precisa de um salário social que lhe garanta um crédito que lhe garanta uma dívida por consumo acima de seus ganhos.
*78% das famílias brasileiras estão endividadas. Na camada mais baixa (pessoas que ganham entre 3 e 5 salários mínimos), 80,9% das pessoas estão endividadas.
Em suma, Pedro não deveria estar passeando por aí se gabando que tem um estagIArio não, sabe? A automação de tarefas básicas é um fato histórico, que começou com trabalhos manuais, depois tarefas computacionais e agora chega às atividades cognitivas. Se Pedro não tivesse matado aula, talvez fosse capaz de perceber que trabalho não é algo de que temos que nos emancipar. Ao contrário, deveríamos buscar a emancipação de trabalhos sem sentido para nós. Pois o trabalho com sentido é uma das fontes mais ricas de juventude. Dá uma olhada na Hakoishi Shitsui, 108 anos, a cabelereira mais velha do mundo ainda em atividade:

O segredo da juventude e de uma vida plena não está no NÃO TRABALHAR, mas no TRABALHAR com sentido, no fazer com prazer, na prática pela prática, com disciplina e amor.
E a IA nisso tudo? Ora, a inteligência artificial é incontornável, uma ferramenta incrível para muitas coisas (não tudo). Cabe a nós fazer bom uso dela, não como máquina emancipadora, mas como instrumento potencializador das nossas qualidades.
Em um mundo onde o papel das máquinas se expande, a nossa relação com o trabalho precisa evoluir para focar no significado e propósito que ele pode trazer às nossas vidas.
Precisamos reavaliar o que significa ser produtivo e valioso em uma sociedade que cada vez mais se apoia na tecnologia para execução de tarefas cotidianas. A verdadeira emancipação não vai vir do afastamento total do trabalho, mas da busca por atividades que nos proporcionem satisfação e tenha um impacto positivo em nossa comunidade, usando a IA não como substituto, mas como aliada.
O desafio está em descobrir e defender essa relação saudável com nosso trabalho, transformando a ideia de produtividade em algo que transcenda a mera produção em massa para atender o consumo. Afinal, é no trabalho com sentido que encontramos não apenas sustento, mas também um caminho para a realização pessoal. Transformar a forma como percebemos o trabalho e o consumo pode ser a maior revolução que podemos alcançar neste século da informação.
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