T&D360 News - Ed 43

O desperdício silencioso do T&D

Gustavo Brito

·

13 de abr. de 2026

1. Todo mundo diz que educação é importante. Mas quem, de fato, trata assim?

Entre 2025 e 2026, nós mergulhamos em mais de 20 pesquisas com empresas brasileiras de diferentes setores, tamanhos e maturidades em T&D.

A pergunta de fundo era simples:

Se todo mundo jura que “aprendizagem contínua é prioridade”, como é que isso aparece nas políticas de reconhecimento e recompensa?

A resposta, infelizmente, foi bem consistente: predomina um tipo de política que a gente poderia resumir como:

Alto reconhecimento, baixa recompensa.

Muito discurso, pouco incentivo real. Muito “que legal que você fez o curso”, pouco “isso muda algo concreto na sua trajetória aqui dentro”.

E isso não é só incoerente. É um desperdício gigantesco de oportunidade.

2. O que os dados estão mostrando (sem maquiagem)

Os mais de 20 diagnósticos que fizemos entre 2025 e 2026 apontam para um padrão tão repetido que dá quase para chamar de zeitgeist da educação corporativa brasileira.

Quando olhamos especificamente para políticas educacionais (forma como a empresa reconhece e recompensa quem se engaja com aprendizagem), o desenho que aparece é:

  • reconhecimento predominantemente informal (elogios, falas em reuniões, posts internos, certificados simbólicos); – recompensa predominantemente baixa ou inexistente (pouco ou nenhum efeito em carreira, remuneração variável, oportunidades de projeto, visibilidade real).

É como se a mensagem fosse:

“Aprender é lindo, mas é opcional. Se você fizer, ótimo. Se não fizer, tudo bem, nada muda.”

No curto prazo, isso até pode parecer um modelo “leve”. No longo prazo, ele cobra um preço alto:

  • engajamento concentrado sempre nas mesmas pessoas (os “de sempre” da educação); – descrédito silencioso (“no fim, isso não faz diferença nenhuma…”); – dificuldade crônica de trazer quem está na borda para perto das iniciativas de T&D.

É aqui que mora o desperdício: vamos até metade do caminho, desenhamos boas experiências, comunicamos bem, às vezes até medimos direito e paramos na hora de colocar peso institucional no ato de aprender.

3. Reconhecimento informal é bom. Só não pode ser o teto.

Não há nada de errado em reconhecer de forma simbólica. Pelo contrário.

Elogios públicos, agradecimentos, espaço para compartilhar aprendizados, certificados bem feitos: tudo isso conta. Mas, se pára aí, o efeito é limitado.

Os dados que analisamos mostram uma espécie de teto de vidro do reconhecimento informal:

  • No começo, ele anima. – Com o tempo, sem consequência concreta, passa a ser visto como “tapinha nas costas”.

E aí acontece algo curioso: as pessoas que mais se engajam começam a sentir que estão fazendo mais esforço do que o sistema está disposto a devolver.

Não é que todo mundo espere bônus em dinheiro por cada curso. Mas é legítimo esperar que, se eu passo anos me engajando com aprendizagem, isso tenha algum peso em:

  • como sou avaliado,

  • que projetos recebo,

  • que oportunidades de crescimento aparecem,

  • como minha liderança me enxerga.

Quando esse peso não aparece, a mensagem implícita é clara: “aprender é importante, mas não é tão importante assim.”

4. Recompensa inteligente não é gamificação barata.

Falar em recompensa em educação corporativa faz muita gente torcer o nariz, porque vem à cabeça:

  • ranking infantilizado,

  • badge sem valor,

  • pontos que não valem nada,

  • brinde aleatório.

Não é disso que estamos falando.

Recompensa inteligente é aquela que:

  • tem conexão direta com o que a empresa valoriza de verdade;

  • reforça comportamentos que interessam ao negócio;

  • trata a aprendizagem como fator de decisão, não como enfeite.

Alguns exemplos concretos de recompensa que emergiram nos diálogos com empresas mais ousadas:

  • Aprendizagem como critério em processos internos de movimentação (promoções, trocas de área, projetos estratégicos);

  • Participação em programas educacionais chave como pré-requisito (ou forte diferencial) para assumir determinadas funções;

  • Reconhecimento em OKRs individuais e de time, quando há engajamento consistente com trilhas alinhadas à estratégia;

  • Acesso antecipado a oportunidades (projetos-piloto, squads, iniciativas de inovação) para quem demonstra compromisso com desenvolvimento.

Percebe a diferença? Não é “fiz um curso, ganhei um copo”. É “meu histórico de aprendizagem pesa nas decisões que mexem na minha vida profissional aqui dentro”.

5. Por que não amarrar reconhecimento e recompensa é um tiro no pé do T&D

Tem um ponto delicado aqui: times de T&D muitas vezes desenham experiências excelentes, mas não têm mandato para mexer em recompensa.

O que os dados dos nossos estudos mostram, porém, é que evitar essa conversa tem um custo alto para o próprio T&D.

Ou seja: quanto mais T&D foge de discutir reconhecimento e recompensa, mais reforça, sem querer, a ideia de que educação é “nice to have”.

E aí, na hora de defender budget, tempo protegido e prioridade na agenda, a conversa fica frágil.

6. O que os mais de 20 estudos deixam claro como oportunidade

Quando olhamos o conjunto das pesquisas entre 2025 e 2026, uma mensagem se repete:

Existe uma base razoável de reconhecimento informal. Falta coragem para dar o próximo passo: amarrar aprendizagem a consequências reais.

Se você tem hoje uma cultura com forte reconhecimento informal, isso é bom. Mas é só a metade cheia do copo. A outra metade é o que pode transformar a educação de “evento” em moeda de valor organizacional.

7. Uma pergunta pra fechar (e abrir conversa interna)

Olhando honestamente para a sua empresa hoje:

Quando alguém se engaja de forma consistente com as oportunidades de aprendizagem certas, o que muda, de fato, na vida dessa pessoa aqui dentro?

Se a resposta for “quase nada, além de elogio”, parabéns: você tem uma base de reconhecimento. E, ao mesmo tempo, um enorme espaço aberto para construir recompensas inteligentes que tragam muita gente nova para perto da educação corporativa.

Talvez o próximo passo do seu T&D não seja criar mais um programa, mas sentar com quem decide políticas e perguntar, com calma e firmeza:

“Se a gente realmente acredita que aprender é estratégico, como é que isso vai aparecer nas regras do jogo?”

A partir daí, qualquer trilha, ecossistema ou jornada ganha outro peso. Porque passa a conversar não só com o desejo de aprender, mas com a forma como a empresa escolhe dizer, na prática, o que valoriza.

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