T&D360 News - Ed 45

O presencial voltou. E agora ele precisa estar à altura do seu preço.

Gustavo Brito

·

27 de abr. de 2026

1. O dado que muda o jogo (se a gente levar a sério)

A edição mais recente do Panorama de Treinamento da ABTD traz um número que merece mais do que um slide de “curiosidade de mercado”:

Em 2025, o treinamento presencial já representa 47% das entregas. Em 2022, esse número era 33%.

Ou seja: depois do pico do digital compulsório na pandemia, o pêndulo voltou. E voltou com força.

Só que tem um detalhe importante aqui... o presencial, hoje, é o modelo mais caro de entrega de experiências de aprendizagem.

Custo de hora de instrutor, custo de oportunidade dos participantes, logística, deslocamento, hospedagem, alimentação, espaço físico, tempo fora da operação. Não é trivial.

Se o presencial voltou e voltou custando caro, então a pergunta que T&D precisa fazer não é só “vamos voltar pro presencial?”, mas:

“O que estamos fazendo com esse tempo presencial para que ele valha o que custa?”


2. Por que o presencial ainda tem potência única para aprendizagem

Não é nostalgia, é neurociência, cultura e prática combinadas: o presencial tem características que são difíceis de replicar integralmente em outros formatos.

No presencial, o que acontece não é apenas “conteúdo sendo transmitido em 3D em vez de 2D”, mas outra qualidade de atenção (menos abas abertas, menos multitarefa hard); outro tipo de leitura fina de gestos, expressões, energia do grupo; outro nível de vínculo entre participantes (conversas de corredor, de café, de intervalo); uma experiência espacial que ajuda o cérebro a ancorar memórias (ambiente, cheiros, disposição física, objetos).

A aprendizagem é um processo social e corporal. Ter o corpo no mesmo lugar, a voz reverberando no mesmo ar, o olhar encontrando o olhar, muda a dinâmica de:

  • confiança,
  • risco,
  • confronto produtivo,
  • colaboração.

Presencial não é “melhor” em tudo, nem para tudo. Mas é um formato com potencial muito alto para temas que exigem debate honesto e resolução de problemas; desenvolvimento de lideranças; trabalho com emoção, vulnerabilidade, confiança; construção de cultura, alinhamento e sentido compartilhado.

A pergunta, portanto, não é se o presencial ainda faz sentido. Faz. É:

O que a gente anda fazendo com essa potência?

3. O presencial virou o formato mais caro. Isso muda o nível de exigência.

Quando o presencial era a única opção, ele era quase default. Hoje, ele é decisão.

Levar pessoas para um ambiente físico, tirar gente da operação, pagar tudo que vem junto é, objetivamente, o formato mais caro de aprendizagem.

Isso deveria acender uma luz amarela em T&D:

Se o presencial é o mais caro, então não dá para usá-lo para o que poderia ser resolvido com leitura, vídeo, tutorial, coaching pontual; não dá para montar encontros longos com aproveitamento baixo; não dá para repetir modelos de “palestra travestida de treinamento”, onde as pessoas passam o dia sentadas vendo slide.

Presencial, hoje, precisa ser sinônimo de experiência impecável. Não impecável no sentido de “show pirotécnico”, mas impecável em coerência; densidade; desenho; respeito ao tempo das pessoas; capacidade de provocar transformação real.

Se T&D não colocar esse padrão de exigência no presencial, alguém vai:

A liderança, o financeiro, a operação (normalmente na forma de corte no orçamento).

4. O risco de usar o presencial como se ainda estivéssemos em 2015

O aumento de participação do presencial no mix de 2025 é um sinal. Mas sinal não é garantia de maturidade.

Tem muita empresa voltando a encher salas sem rever desenho ou reciclando conteúdos antigos em formatos novos só para dizer que “voltou com tudo”. Outras andam apostando em edutainment presencial, na esperança de que “se for legal, engaja”.

O risco é criar experiências que geram NPS alto (porque todo mundo “curtiu”), mas não mexem comportamento, nem conectam com estratégia ou deixam rastros de aplicação.

Em um contexto em que o presencial é o formato mais caro, seguir nesse caminho é um luxo que T&D não tem.

A conta não fecha: alto custo, baixa transformação, alta pressão por resultado.

5. Como aproveitar o retorno do presencial sem abrir mão de inteligência

Se você está em T&D e está vendo o pêndulo voltar para o presencial, algumas perguntas merecem ser feitas antes de agendar a próxima sala:

O presencial está reservado para aquilo que precisa mesmo de presença? Ou estamos usando presencial para compensar desenho ruim?

O que pode ir para o antes e o depois, para que o durante seja ouro? Pré-trabalho, materiais assíncronos, exercícios no trabalho, mentorias.

Quais experiências presenciais recentes você pode, honestamente, dizer que transformaram a forma de agir de quem participou? Se a lista for curta, esse é um ótimo ponto de partida para revisão.

6. Pergunta para fechar (e abrir reunião aí dentro)

Se você pegar a experiência presencial mais cara que a sua empresa ofereceu nos últimos 12 meses e olhar para ela com total honestidade:

Ela valeu o que custou em termos de transformação real de comportamento e impacto em negócio?

Se a resposta for “sim”, ótimo: você tem um caso para multiplicar. Se a resposta for “não sei” ou “acho que não”, talvez a boa notícia seja essa:

O dado da ABTD não é só estatística. É um convite para T&D redesenhar o presencial como aquilo que ele pode ser na sua melhor versão: um espaço raro, caro e profundamente potente de aprendizagem e não apenas o retorno nostálgico a um passado que já não existe.

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