T&D360 News - Ed 29
Cartinha para Noel

Gustavo Brito
·
22 de dez. de 2025

Querido Papai Noel,
Sei que você deve estar atolado de pedidos neste fim de ano. Tem criança pedindo brinquedo, adulto pedindo tempo, planeta pedindo socorro. Mas, se me permite, queria aproveitar esse momento simbólico para fazer um pedido um pouco diferente: não é para mim, é para a educação corporativa brasileira.
Sim, eu sei. Não é um pedido comum. Mas também não vivemos tempos comuns. E como você é um especialista em logística, gestão de recursos escassos e encantamento em larga escala, achei que talvez pudesse me ajudar.
Vamos lá.
Primeiro presente: um pouco mais de verdade. Estamos há décadas repetindo modelos de prateleira como se fossem dogmas. O tal do 70-20-10, por exemplo, virou mantra corporativo sem nunca ter sido modelo validado. O que eu peço é simples: que as organizações tenham coragem de abandonar o que não se sustenta em evidência e comecem a fazer perguntas melhores. Que deixem de lado os percentuais decorados e passem a desenhar experiências baseadas em dados reais, contextos específicos e necessidades humanas. Em outras palavras, que troquem o copy-paste pelo pensamento crítico.
Segundo presente: ambientes férteis. Papai Noel, você que planta esperança em corações cansados, sabe bem que nada floresce em solo infértil. Pois é. Tem muita empresa por aí querendo colher sem plantar, ou pior, plantando em solo tóxico. O que eu peço é que as lideranças entendam que o sucesso de qualquer iniciativa de aprendizagem depende do ecossistema em que ela nasce. Que cuidem do ambiente como se cuida de uma horta: com paciência, atenção, diversidade e adubo emocional. Que saibam que fertilidade não se improvisa.
Terceiro presente: menos espetáculo, mais substância. Estamos vivendo a era do edutainment, esse casamento apressado entre educação e entretenimento. Mas, como você bem sabe, nem todo casamento dá certo. O que eu peço é que a educação corporativa pare de tratar adultos como crianças com déficit de atenção. Que pare de confundir sorrisos com aprendizado. Que volte a valorizar o desconforto produtivo, aquele que antecede toda transformação real. Que pare de embrulhar o conteúdo em papel de presente colorido e comece a entregar o que realmente importa: espaço para reflexão, tempo para maturação, liberdade para errar e aprender.
Quarto presente: cultura de aprendizagem de verdade. Não aquela que aparece no PPT, mas a que se manifesta nos rituais do dia a dia, nos corredores, nas conversas de banheiro, nos símbolos que ninguém nomeia, mas todo mundo sente. Que as empresas parem de falar de cultura como se fosse um adereço e comecem a tratá-la como o que ela é: o solo invisível onde tudo se sustenta ou desmorona. Que saibam diagnosticar, cultivar e transformar culturas de aprendizagem com a mesma seriedade com que tratam seus indicadores financeiros.
Quinto presente: mais gente full stack. Não estou falando de programadores, mas de designers de aprendizagem que saibam navegar por todos os stacks da educação: do ambiente ao delivery. Gente que entenda de cultura, de método, de arquitetura, de experiência, de impacto. Gente que saiba que desenhar uma trilha não é escolher um template bonito, mas criar uma jornada que respeite o tempo, o contexto e a potência de quem aprende. Que saibam que o design começa no diagnóstico e termina no encantamento.
Sexto presente: liderança que patrocina, não que terceiriza. Papai Noel, você que lidera uma operação global com renas e duendes, sabe o valor de uma liderança presente. O que eu peço é que os líderes das organizações brasileiras parem de delegar a aprendizagem como se fosse um favor e comecem a tratá-la como estratégia. Que patrocinem com presença, com exemplo, com investimento de tempo e energia. Que estejam nas salas de aula, nos fóruns, nos feedbacks. Que saibam que liderar é, antes de tudo, aprender junto.
Sétimo presente: métricas que importam. Chega de medir se o colaborador gostou do curso. Vamos medir se ele mudou o comportamento. Se passou a decidir melhor, a liderar com mais empatia, a resolver problemas com mais autonomia. Que as métricas deixem de ser vaidade e passem a ser bússola. Que sirvam para ajustar a rota, não para justificar o orçamento.
Oitavo presente: menos LMS e LXP, mais LAP. Não estou falando só de tecnologia, mas de gestão do conhecimento. Que a aprendizagem deixe de ser um catálogo frio e passe a ser uma jornada viva. Que os sistemas sirvam às pessoas, e não o contrário. Que haja curadoria, mentoria, comunidade. Que o digital seja ponte, não prisão.
Nono presente: tempo. Sim, tempo. Porque sem tempo não há aprendizado possível. Que as empresas entendam que aprender não é um luxo, é uma necessidade. Que deem tempo para estudar, para refletir, para praticar. Que parem de achar que dá para aprender liderança em três vídeos de cinco minutos. Que saibam que o tempo da aprendizagem é o tempo da transformação.
Décimo presente: humildade. Para reconhecer que não sabemos tudo. Para escutar quem está na ponta. Para aprender com o erro. Para desaprender o que já não serve. Para recomeçar, se for preciso.
Sei que é uma lista longa, Papai Noel. Mas também sei que você é bom de logística. E se não der para entregar tudo agora, tudo bem. Pode ir mandando aos poucos. O importante é que a gente comece.
Porque, no fim do dia, a educação corporativa brasileira não precisa de mais cursos. Precisa de mais coragem. Coragem para fazer diferente. Para fazer melhor. Para fazer com verdade.
Com afeto, esperança e um tantinho de indignação produtiva,
Gustavo Brito
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