T&D360 News - Ed 12
Generalismos
Ainda vão acabar matando o T&D.

Gustavo Brito
·
25 de ago. de 2025

TREND
Mais cedo nesse ano, em uma palestra no SXSW, Mike Bechtel trouxe ao palco o conceito dos profissionais polímatas (capazes de tudo aprender) como o benchmark de profissional do futuro. Seu argumento foi que colaboradores capazes de navegar por diversas disciplinas e conectar pontos serão fundamentais nessa era inicial da inteligência artificial. Eu não estava lá, mas ao que parece, chegou a dizer que os polímatas do século 21 são os herdeiros de Leonardo Da Vinci (o que deve ter feito o próprio Da Vinci rodopiar na sua tumba).
futurosa.com.br
Polímatas Digitais: conheça os protagonistas da nova era do trabalho.
Depois dessa palestra, a palavra POLÍMATA virou modinha, volta e meia aparecendo por aqui nessa rede e na boca de repetidores acríticos. Impressionante como basta um palco e uma palestra em Austin para que uma hipótese vire verdade! Ora, vamos dar uma olhada nessa coisa de polimatia um pouco mais de perto?
O próprio Bechtel cunhou a expressão "Learn-it-all", algo como Aprende-de-Tudo como contraponto ao Sabe-de-Tudo (Know-it-All). Bonito, no papel muito bonito. Entretanto, é preciso considerar que:
O volume de coisas para aprender é hoje de bilhões de informações (cerca de 175 zetabytes no ano passado), o que nos deixa diariamente infotoxicados;
O nível de distração é hoje infinitamente maior do que no tempo de...digamos...Da Vinci. Isso significa que para esse volume de aprendizagens disponíveis não temos resposta à altura, dado que na maioria das vezes estamos dopados diante de telas com feeds eternos, desenhados para nos entorpecer;
Da Vincis não dão em árvore. Polímatas são a exceção, não a regra;
Profissionais generalistas são infinitamente mais substituíveis por IA do que especialistas, dado que nadam na mesma superfície que as máquinas.
É lógico que ser um "Learn-it-All é ótimo. É lógico que saber profundamente muito sobre muitos assuntos é ótimo. É lógico que pessoas capazes disso terão mais mercado e serão mais valorizados. Isso não é novidade hoje, nem nunca. Polímatas sempre foram pontos fora da curva, sempre foram valorizados (talvez não pelo mundo corporativo, mas pelo mundo real). Contudo, a polimatia não é uma qualidade que se conquista com um simples "mindset de aprendiz". Demanda tempo, vastíssimo repertório prévio, capacidade de reflexão profunda, pensamento crítico, analítico, sistêmico, espaço para experimentação...ingredientes raríssimos nos tempos atuais.
É lindo incentivar que as pessoas sejam Aprendentes-de-Tudo. Claro! Sobretudo em tempos tão sombrios e carentes de ciência e consciência como os de hoje. Mas uma coisa é incentivar, a outra é condicionar sucesso profissional com uma qualidade quasi-inatingível para a maioria absoluta da mão de obra disponível.
INSIGHTS
Pior do que o modismo do generalismo polímata é o que ele pode fazer com áreas de treinamento e desenvolvimento. Times de educação corporativa sempre foram preenchidos de profissionais generalistas, comumente de passagem pela cadeira, rumo à uma carreira de "generalista de RH". Nada de errado com isso, não fosse o fato de que educação é uma ciência social que pede conhecimentos profundos de neurodidática, sociologia, antropologia, para ficar em alguns poucos. Educação que funciona se faz com conhecimento profundo e especializado em ciências da educação e ciências sociais, então é realmente um problema que esse discurso de polimatia se espalhe sem passar por reflexões críticas, pois podem acabar convencendo tomadores de decisão de que sim, pode-se ter qualquer tipo de profissional numa cadeira de educação corporativa. Não, não se pode.
A ausência de cientistas da educação e cientistas sociais nas cadeiras de educação corporativa e T&D é alarmante. Não só dentro das empresas, mas também nas empresas fornecedoras que essas empresas normalmente contratam para que façam sua educação. Eu conheço e sei que você que me lê também deve conhecer dezenas de grandes players no mercado de consultorias de educação corporativa que não contam sequer com especialistas de design instrucional, que dirá cientistas da educação e cientistas sociais!
Não por acaso o resultado é o T&D na encruzilhada.
Educação de valor se faz com ciência, com especialistas. Já passou da hora de profissionais de T&D, de universidades corporativas, de educação corporativa mergulhem fundo, busquem a profundidade e se tornem especialistas em educação. O risco de desaparecimento é real. Ainda dá tempo, mas não há um minuto a perder. A inteligência artificial já passou da porta, adentrou nossas casas e não sairá. Seu lugar estará menos vulnerável quão mais profundo, prático e dinâmico for o seu rol de competências.
Poucas-&-Boas ao invés de Muitas-&-Mais ou Menos.
———
Quem sabe seu mergulho em profundidade de ciências da educação e ciências sociais não começa por aqui, com a gente, na Cognita?
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