T&D360 Live - Ep 6

Liderança na corda bamba

Com Vicky Bloch

Cognita LL

·

5 de ago. de 2025

A liderança diante do fio esticado

Liderar nunca foi exatamente confortável. Mas há momentos históricos em que a liderança deixa de ser apenas uma função organizacional e passa a ser uma travessia.

Hoje, muitos líderes parecem caminhar sobre uma corda bamba: de um lado, metas mais agressivas, pressão por resultado, transformação digital, inteligência artificial, conselhos exigentes e sistemas de remuneração que continuam premiando comportamentos antigos. Do outro, pessoas cansadas, relações de trabalho mais frágeis, novas gerações menos dispostas a aceitar contratos psicológicos assimétricos e uma sociedade que já não tolera, com a mesma passividade, modelos de comando e controle.

No meio disso tudo, está a liderança.

Não como heroína solitária. Não como salvadora da organização. Mas como uma função humana, relacional e ética, que precisa tomar decisões em um contexto cada vez mais ambíguo.

A pergunta deixou de ser apenas “como liderar melhor?”. Talvez a pergunta mais honesta seja: que tipo de ser humano uma pessoa precisa se tornar para liderar neste tempo?

Liderar é facilitar a vida dos outros

Uma das provocações mais fortes da live foi também uma das mais simples: quando alguém aceita uma cadeira de liderança, está aceitando facilitar a vida de outras pessoas.

Essa definição parece quase ingênua diante do vocabulário corporativo contemporâneo. Falamos em gestão de performance, estratégia, alinhamento, engajamento, influência, cultura, OKRs, transformação, produtividade. Mas, no fundo, liderar continua passando por algo muito concreto: remover obstáculos, ajudar pessoas a pensar melhor, criar condições para que elas entreguem, cresçam e atravessem problemas com mais clareza.

O problema é que muita gente aceita a liderança lembrando apenas da promoção, do salário maior, do status ou da visibilidade. A outra parte do contrato aparece depois: a responsabilidade sobre o ambiente que se cria para os outros.

Liderança não é só ocupar uma cadeira. É responder pelo impacto que essa cadeira produz.

E esse impacto não se limita aos liderados diretos. Ele alcança pares, clientes, fornecedores, parceiros, comunidades e a sociedade. Toda liderança, em alguma medida, desenha um pequeno mundo ao seu redor. A questão é: esse mundo amplia ou reduz a dignidade das pessoas?

O desencanto com o trabalho não nasceu ontem

Parte da tensão atual entre pessoas e organizações tem raízes profundas. Não começou com a geração Z, nem com o trabalho remoto, nem com o quiet quitting. Esses fenômenos são sintomas de algo maior: um desencanto progressivo com o trabalho organizado.

Durante décadas, muitas pessoas estabeleceram com as empresas uma relação de lealdade quase total. Em troca, esperavam segurança, pertencimento e reconhecimento. Mas os grandes ciclos de reestruturação, demissões em massa, fusões, privatizações, reengenharias e desligamentos mal conduzidos romperam esse pacto.

Quando uma geração viu pais e avós dedicarem décadas a organizações e, depois, serem tratados como peças descartáveis, aprendeu uma lição dura: talvez não valha a pena entregar tudo a uma instituição que pode devolver tão pouco.

As novas gerações não inventaram a desconfiança. Elas herdaram histórias de ruptura.

Por isso, quando jovens profissionais questionam o modelo tradicional de carreira, resistem à ideia de liderança ou colocam limites mais explícitos na relação com o trabalho, talvez não estejam apenas sendo “difíceis”. Talvez estejam respondendo a uma memória social que as organizações ainda não elaboraram.

O desencanto tem custo. E ele aparece em menor engajamento, maior rotatividade, cinismo, esgotamento, baixa confiança e dificuldade de formar novas lideranças.

Comando e controle não acabou. Apenas mudou de roupa.

Há quem diga que o modelo de comando e controle morreu. Mas talvez ele apenas tenha aprendido a usar ferramentas mais sofisticadas.

Antes, ele aparecia em gestos explícitos: gritos, humilhações, controle presencial, vigilância física, autoritarismo direto. Hoje, muitas vezes, aparece em dashboards, sistemas de monitoramento, metas impossíveis, microgestão digital, reuniões excessivas, cultura de disponibilidade permanente e discursos de autonomia acompanhados de práticas de controle.

A forma mudou. A lógica, nem sempre.

É verdade que alguns comportamentos antes tolerados se tornaram inaceitáveis. Canais de denúncia, legislações, debates sobre assédio e novas sensibilidades sociais criaram limites importantes. Mas isso não significa que as organizações tenham abandonado a mentalidade de controle. Em muitos casos, ela apenas se tornou mais elegante, menos visível e mais difícil de nomear.

A liderança contemporânea vive justamente essa contradição: sabe que precisa abandonar velhos modelos, mas muitas vezes continua inserida em sistemas que a empurram para reproduzi-los.

Queremos colaboração, mas recompensamos competição. Queremos escuta, mas premiamos velocidade decisória sem reflexão. Queremos autonomia, mas punimos o erro. Queremos saúde, mas romantizamos a exaustão. Queremos inovação, mas protegemos hierarquias frágeis demais para serem contrariadas.

A corda bamba da liderança está aí: pedir o novo enquanto se opera com os incentivos do velho.

Performance e saúde não podem ser inimigas

Uma das falsas dicotomias mais perigosas nas organizações é a ideia de que performance e cuidado pertencem a campos opostos.

Como se entregar resultado exigisse sacrificar saúde. Como se relações mais humanas fossem incompatíveis com ambição. Como se líderes que escutam, desenvolvem e criam ambientes mais seguros fossem necessariamente menos exigentes.

Essa oposição é pobre — e cara.

Ambientes adoecidos podem até produzir resultados de curto prazo. Mas cobram juros altos. Queimam pessoas, corroem confiança, reduzem colaboração, empobrecem o pensamento e comprometem a sustentabilidade do desempenho.

Performance sem humanidade pode gerar bons trimestres. Dificilmente constrói boas décadas.

O desafio não é escolher entre resultado e cuidado. É desenvolver lideranças capazes de sustentar conversas mais maduras sobre ambos. Lideranças que saibam exigir sem desumanizar. Cuidar sem infantilizar. Escutar sem abdicar de decidir. Dar autonomia sem abandonar. Reconhecer limites sem reduzir ambição.

Essa é uma competência sofisticada. E, como toda competência sofisticada, não nasce de uma palestra inspiradora.

A liderança começa no espelho

Quando falamos de desenvolvimento de líderes, o mercado costuma buscar métodos, ferramentas, escolas, programas, certificações e modelos. Tudo isso pode ter valor. Mas há uma etapa anterior que não pode ser terceirizada: o exercício de olhar para si.

Liderança não se desenvolve apenas acumulando técnicas. Desenvolve-se quando a pessoa começa a reconhecer seus padrões, suas defesas, suas ambições, seus medos, suas incoerências, seus automatismos e seus impactos.

Não se trata de mudar a “essência” de alguém, como se personalidade fosse argila nas mãos de um programa corporativo. Trata-se de ampliar consciência. Entender onde certas características ajudam e onde atrapalham. Perceber quando uma força se transforma em excesso. Reconhecer quando uma convicção vira cegueira.

Esse trabalho exige humildade. E talvez por isso seja tão difícil.

Porque liderar é fazer escolhas todos os dias. Algumas visíveis, outras silenciosas. Escolhas sobre o que tolerar, o que confrontar, quem promover, quem escutar, que comportamento recompensar, qual conflito enfrentar, qual injustiça naturalizar, qual valor defender quando defender esse valor tem custo.

A carreira de uma liderança é feita dessas escolhas. E, ao longo do tempo, elas viram reputação.

Escolhas deixam marcas

A palavra “escolha” costuma aparecer no mundo corporativo de forma leve demais. Como se escolher fosse apenas decidir entre alternativas estratégicas, priorizar projetos ou distribuir recursos.

Mas escolhas também são morais.

Uma liderança escolhe quando se cala diante de uma prática injusta. Escolhe quando protege alguém poderoso que desrespeita pessoas. Escolhe quando aceita metas impossíveis sem discutir seus efeitos. Escolhe quando promove uma pessoa tecnicamente brilhante, mas culturalmente destrutiva. Escolhe quando escuta uma crítica ou quando pune quem teve coragem de fazê-la.

Muitas vezes, essas escolhas parecem pequenas. Um gesto aqui, uma omissão ali, uma concessão acolá. Mas é assim que culturas são construídas: não apenas pelos grandes discursos, mas pela repetição cotidiana do que é permitido, premiado ou ignorado.

No fim, a liderança não é medida apenas pelo que entrega. É medida também pelo tipo de ambiente que legitima para entregar.

Escuta não é gentileza. É inteligência estratégica.

Poucas competências são tão citadas e tão mal praticadas quanto a escuta.

Nas organizações, escutar ainda é frequentemente confundido com abrir uma pesquisa, fazer uma reunião, coletar opiniões ou permitir que as pessoas “falem”. Mas escuta real é outra coisa. Ela implica disposição para ser afetado pelo que se ouve. Implica admitir que a visão da liderança é parcial. Implica criar canais pelos quais informações desconfortáveis possam subir sem serem destruídas no caminho.

Uma liderança que não escuta fica vulnerável. Toma decisões com dados incompletos. Reforça bolhas. Reproduz convicções. Cerca-se de ecos. Confunde silêncio com concordância.

E aqui há uma inversão importante: muitas organizações acreditam que vulnerabilidade está em permitir que as pessoas falem. Na verdade, o maior risco está em impedir que falem.

Quando os liderados não conseguem dizer “não é por aí”, a liderança perde contato com a realidade. E poucas coisas são mais perigosas para uma organização do que uma liderança protegida demais da verdade.

Desenvolver liderança não é oferecer receita

Quando surge a pergunta “qual é a melhor escola para desenvolver líderes?”, a resposta mais honesta talvez seja: depende do que precisa ser desenvolvido.

Essa resposta incomoda porque fomos educados a buscar receitas. Queremos o método, o framework, a trilha, a certificação, o passo a passo. Mas liderar em um mundo complexo exige justamente a capacidade de abandonar respostas únicas.

O desenvolvimento de lideranças precisa trabalhar múltiplas entradas: autoconhecimento, repertório conceitual, prática, reflexão, feedback, exposição a perspectivas diferentes, gestão de polaridades, pensamento sistêmico, tomada de decisão, ética, comunicação, escuta e leitura de contexto.

Não basta ensinar ferramentas. É preciso transformar enquadramentos mentais.

Muitas lideranças ainda operam com tecnologia do século XXI, cultura organizacional do século XX e modelos mentais do século XIX. Querem lidar com complexidade usando pensamento binário. Querem resolver tensões humanas com planilhas. Querem transformar cultura sem transformar relações.

O desenvolvimento de líderes precisa romper essa lógica. Não para substituir uma receita antiga por uma nova, mas para formar pessoas capazes de pensar melhor diante de problemas sem receita.

Liderança cidadã: o impacto para além da equipe

Um dos conceitos mais potentes da conversa foi o de liderança cidadã.

A liderança cidadã não olha apenas para a própria área, a própria meta ou a própria carreira. Ela compreende que suas decisões têm impacto sistêmico. Ela reconhece que liderar é participar da construção de um tecido social: dentro e fora da organização.

Isso muda a régua.

Uma liderança cidadã se pergunta: que efeito minhas decisões produzem sobre as pessoas? Que tipo de relação estamos criando com fornecedores? Que experiência oferecemos aos clientes? Que cultura estamos formando para as próximas gerações? Que escolhas estamos naturalizando? Que sociedade estamos ajudando a construir?

Essa visão pode parecer idealista. Mas talvez o verdadeiro idealismo seja acreditar que organizações podem continuar produzindo resultados sustentáveis enquanto tratam pessoas como recursos descartáveis.

Liderança cidadã não é romantismo. É lucidez sistêmica.

O papel da educação corporativa: formar para a vida, não apenas para a função

A live trouxe uma provocação essencial para T&D: talvez a maior contribuição de uma organização para seus profissionais não seja apenas capacitar tecnicamente, mas ajudá-los a fazer melhores escolhas.

Isso não significa transformar empresas em escolas de virtude, nem confundir desenvolvimento corporativo com terapia. Significa reconhecer que trabalho, vida e identidade estão profundamente conectados.

Quando uma pessoa entende melhor onde dá certo, que ambientes favorecem sua contribuição, que tipo de liderança a ajuda a crescer, quais valores orientam suas decisões e quais padrões limitam sua atuação, ela se torna mais capaz de escolher. E escolhas melhores beneficiam também a organização.

Da mesma forma, quando a empresa consegue dizer com clareza quais oportunidades oferece, que cultura sustenta, que comportamentos valoriza e que tipo de contribuição espera, cria condições para escolhas mútuas mais honestas.

Esse encontro entre pessoa e organização não pode ser baseado em fantasia. Precisa ser baseado em clareza.

T&D tem um papel decisivo nessa construção: desenhar experiências que não apenas informem, mas provoquem reflexão; que não apenas treinem habilidades, mas ampliem consciência; que não apenas preparem para a próxima função, mas fortaleçam a capacidade de agir com responsabilidade em contextos complexos.

Reflexão, vivência, reflexão

Se fosse possível resumir o desenvolvimento da liderança em uma fórmula, talvez ela não fosse uma fórmula, mas um ritmo: reflexão, vivência, reflexão.

Viver uma experiência não garante aprendizagem. É preciso olhar para ela. Perguntar o que aconteceu, que escolhas foram feitas, que impactos foram produzidos, que padrões se repetiram, que alternativas existiam, que marcas ficaram.

Essa é a base da metacognição: aprender a observar o próprio pensamento e a própria ação. Sem esse exercício, a liderança apenas acumula anos de experiência. Com ele, transforma experiência em maturidade.

E maturidade é uma das coisas mais necessárias em um tempo de polarização, ansiedade, velocidade e ruído.

Precisamos de líderes capazes de sustentar tensões sem reduzi-las a slogans. Capazes de discordar sem destruir. Capazes de decidir sem se desumanizar. Capazes de reconhecer o próprio limite sem fugir da responsabilidade. Capazes de formar outras lideranças, não apenas seguidores obedientes.

A corda bamba não vai desaparecer

Talvez a liderança continue na corda bamba por muito tempo. A complexidade não vai diminuir. As pressões não vão desaparecer. As novas gerações continuarão questionando. A inteligência artificial continuará reorganizando o trabalho. As expectativas sociais sobre as empresas continuarão aumentando.

A questão não é tirar a liderança da corda. É desenvolver melhor sua capacidade de travessia.

Isso exige equilíbrio, sim. Mas não o equilíbrio de quem evita movimento. É o equilíbrio dinâmico de quem aprende a ajustar o passo, escutar o vento, olhar para o entorno e seguir com consciência.

Liderar, hoje, é atravessar sem fingir que o chão está firme.

E talvez o primeiro passo seja aceitar que não existe liderança sustentável sem reflexão. Não existe transformação cultural sem escolhas difíceis. Não existe performance de longo prazo sem humanidade. E não existe futuro organizacional saudável se continuarmos formando líderes apenas para comandar, quando o mundo precisa de líderes capazes de cuidar, pensar, escutar e responder pelo impacto que produzem.

A corda está esticada. A travessia é coletiva. E cada escolha conta.

———

Este artigo foi gerado a partir da conversa entre Gustavo Brito, Daniel Luzzi e Vicky Bloch, na live Cognita T&D360 Live - Ep 6: Liderança na corda bamba. em 05 de ago. de 2025.

Confira o papo na íntegra:

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