T&D360 News - Ed 27
Mais rigor, por favor
Não dá para chamar urubu de meu louro!

Gustavo Brito
·
8 de dez. de 2025

Quem nunca ouviu em uma apresentação corporativa a frase "temos um robusto ecossistema de aprendizagem"? Invariavelmente, ao clicar no próximo slide, o que vemos é uma coleção de cursos e trilhas de aprendizagem empilhados como mercadorias em uma prateleira de supermercado. Chamar isso de ecossistema é como chamar uma coleção de plantas em vasos de "floresta amazônica".
Não me entendam mal. Cursos e trilhas são importantes. Mas um ecossistema? Não mesmo.
O que realmente é um ecossistema de aprendizagem?
Gente, como já defini antes no meu livro A Horta, um ecossistema de aprendizagem é um campo social onde existe a interação permanente e ininterrupta entre pessoas, oportunidades de aprendizagem diversas e objetos técnicos responsáveis pela veiculação dessas oportunidades. É um campo social autopoietico (vide Maturana).
A palavra-chave aqui é "interação". Um ecossistema não é uma simples soma de partes, mas um organismo vivo onde cada elemento influencia e é influenciado pelos demais. Na natureza, um ecossistema é caracterizado pelo equilíbrio delicado entre diferentes espécies e seu ambiente. Quando transportamos esse conceito para a educação corporativa, precisamos entender que não basta oferecer conteúdo, é necessário criar um ambiente onde a aprendizagem floresça organicamente.
A monocultura educacional e seus perigos
Muitas organizações sofrem do que chamo de "monocultura de aprendizagem" - apostam exclusivamente em heteroformações (oportunidades desenhadas por outros para outros), ignorando a autoformação e a aprendizagem em comunidade. É como plantar apenas soja em uma fazenda inteira - pode até dar lucro no curto prazo, mas eventualmente esgota o solo e torna a plantação vulnerável a pragas e doenças. As pessoas cansam, nossos cérebros sofrem com o fenômeno da habituação (vide neurociência) e, invariavelmente, as pessoas abandonam.
Um verdadeiro ecossistema de aprendizagem é diverso. Combina diferentes formatos, abordagens e metodologias. Considera as necessidades individuais, as preferências de aprendizagem e os contextos específicos de cada pessoa. Valoriza tanto o conhecimento formal quanto o informal, tanto o planejado quanto o espontâneo.
Construindo a partir das raízes
Para criar um ecossistema de aprendizagem genuíno, é preciso começar pelo terreno. Não adianta plantar sementes em solo infértil ou hostil. Na educação corporativa, isso significa preparar o ambiente organizacional para receber e nutrir a aprendizagem.
Precisamos analisar e compreender a cultura de aprendizagem existente antes de implementar qualquer iniciativa. É preciso "topografar" (mapear o terreno), entender seus relevos, suas características, suas potencialidades e limitações.
Um ecossistema saudável depende de três norteadores fundamentais:
Precisão educacional: Quão bem as oportunidades de aprendizagem atendem às necessidades reais das pessoas e da organização.
Diversidade: A variedade de formatos, abordagens, temas e perspectivas disponíveis.
Convivialidade: A capacidade de promover interações significativas e autônomas entre as pessoas.
A verdade inconveniente
A verdade é que construir um ecossistema de aprendizagem dá trabalho. Muito trabalho. Exige visão sistêmica, competência técnica, sensibilidade cultural e, acima de tudo, paciência. Como um bom horticultor, o profissional de T&D precisa preparar o solo, selecionar as sementes certas, irrigar na medida certa e esperar o tempo necessário para a colheita.
É muito mais fácil comprar um pacote de cursos prontos, chamar de "ecossistema" e seguir em frente. Mas, como diria minha avó, "o barato sai caro". A falta de engajamento, a baixa retenção de conhecimento e o desalinhamento com as necessidades do negócio são apenas alguns dos sintomas de um falso ecossistema.
O caminho a seguir
Se você realmente quer criar um ecossistema de aprendizagem na sua organização, comece por fazer algumas perguntas fundamentais:
Qual é a cultura de aprendizagem atual da empresa?
Quais são as barreiras para a aprendizagem contínua?
Como promover interações significativas entre as pessoas?
Como equilibrar as necessidades individuais e organizacionais?
E lembre-se: um ecossistema não se constrói da noite para o dia. É um processo contínuo de cultivo, cuidado e adaptação. Como uma horta bem cuidada, ele requer atenção constante, mas os frutos que produz compensam amplamente o esforço investido.
Da próxima vez que alguém lhe apresentar um "ecossistema de aprendizagem", pergunte: "Isso é realmente um ecossistema ou apenas uma coleção de cursos?" A resposta pode ser reveladora.
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