T&D360 News - Ed 15

Praga de T&D

Como a assistematicidade tem asfixiado a educação corporativa.

Gustavo Brito

·

15 de set. de 2025

Há mais de um ano lancei "A Horta: Transformando subsistema em ecossistema de aprendizagem", e desde então tenho dialogado com centenas de profissionais de treinamento e desenvolvimento que compartilham comigo o mesmo sentimento: a frustração com a assistematicidade que domina nossas iniciativas educacionais corporativas.

O cenário atual da educação nas empresas brasileiras me parece um grande terreno fértil, porém mal aproveitado. É como um campo onde nascem plantas aleatoriamente - vez ou outra colhem-se alguns frutos silvestres, mas sem o cultivo intencional, sistemático e cuidadoso que uma horta educacional merece.

Esta assistematicidade, conceito que apresento em meu livro, refere-se à ausência de visão sistêmica no design, na execução e na gestão da educação em ambientes corporativos. Iniciativas desconexas, ações isoladas, cursos pontuais sem diálogo entre si, plataformas que não conversam, dados dispersos que ninguém analisa - o desperdício é visível e doloroso.

Quando falamos em educação corporativa assistemática, falamos de um ambiente onde não existe um aparelho social específico responsável pela produção serial de objetos e oportunidades educacionais. Falamos de uma realidade onde não há instrumentos oficiais e interconectados para distribuir adequadamente esses objetos e oportunidades. E, crucialmente, falamos da ausência de uma entidade responsável pela gestão da oferta e da demanda por educação.

As consequências? São três e formam o que chamo de "tridente do demônio": desengajamento, desconexão e desdém.

O desengajamento é gritante. Dados da ABTD mostram um percentual médio de 45% de não comparecimento em treinamentos abertos. Quase metade dos inscritos simplesmente não aparece. Mesmo em treinamentos mandatórios, o percentual de ausência chega a 12%. A assistematicidade gera inconsistência, e a inconsistência mata o engajamento.

A desconexão entre educação e negócio é o segundo dente do tridente. Apenas 8% dos líderes conseguem enxergar uma conexão real entre as iniciativas de T&D e os resultados do negócio, segundo dados do LinkedIn. Como estabelecer essa conexão quando as iniciativas educacionais são fragmentadas, isoladas e desprovidas de visão sistêmica?

O terceiro aspecto, talvez o mais doloroso para quem trabalha com educação corporativa, é o desdém. Apenas 14% dos líderes de T&D atestam que a liderança os vê como parceiros estratégicos, conforme pesquisa da Deloitte. Sem uma abordagem sistêmica e estratégica, a educação corporativa é facilmente relegada a um papel tático e operacional, perdendo seu lugar à mesa das decisões importantes.

A solução para este cenário desafiador passa pela elevação da educação corporativa de um mero subsistema a um verdadeiro ecossistema de aprendizagem. Um ecossistema pressupõe interação constante entre pessoas, oportunidades de aprendizagem diversas e objetos técnicos que suportam essas interações.

Em um ecossistema de aprendizagem, as experiências educacionais são interconectadas, alimentam-se mutuamente e consideram as diferentes formas de aprender. Há espaço para heteroaprendizagem, autoaprendizagem e comunidades de prática. Há lugar para experiências síncronas e assíncronas, formais e informais, estruturadas e emergentes.

Um ecossistema de aprendizagem não desperdiça dados - ele os coleta, analisa e transforma em insights para a tomada de decisão. Não desperdiça energia - ele canaliza o interesse natural das pessoas pelo desenvolvimento em iniciativas que façam sentido para elas e para o negócio. Não desperdiça talento - ele reconhece e valoriza as múltiplas inteligências e competências disponíveis na organização.

Se quisermos que a educação corporativa seja vista como estratégica pela alta liderança, precisamos começar a pensá-la e estruturá-la de forma estratégica. Isso significa abandonar a abordagem assistemática em favor de uma visão ecossistêmica.

Significa desenhar arquiteturas educacionais que considerem não a transmissão deconteúdo, mas a aprendizagem como um todo, com suas interações possíveis e caminhos de desenvolvimento disponíveis.

O futuro da aprendizagem corporativa depende da nossa capacidade de vencer o "complexo de subespécie" - essa tendência a tratar a educação como algo menor, como um subsistema isolado. Precisamos elevar o status da educação nas organizações, transformando hortas mal cuidadas em ecossistemas vibrantes de aprendizagem.

Como horticultores de aprendizagem, temos a responsabilidade de preparar o terreno, escolher as sementes adequadas, nutrir o solo com atenção e cuidado, e celebrar cada colheita como uma conquista coletiva.

A educação corporativa do futuro será sistêmica ou não será.

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