T&D360 News - Ed 37
26 mil cursos não fazem uma floresta
26 mil cursos não fazem uma floresta: catálogo entupido não é sinônimo de ecossistema.

Gustavo Brito
·
2 de mar. de 2026

1. Reflexão da semana
“Agora temos um ecossistema com mais de 26 mil cursos no nosso LMS.”
Essa frase costuma aparecer em apresentações como um troféu. É número que brilha bem em slide: impressiona, preenche, dá sensação de abundância.
Mas, se usarmos a metáfora de A Horta, um número como esse levanta outra pergunta, bem menos confortável:
Estamos cultivando um ecossistema de aprendizagem ou apenas deixando crescer um mato alto de conteúdo genérico?
Porque, assim como uma monocultura não é floresta, um LMS lotado não é e nunca será um ecossistema de aprendizagem.
2. O que é, de fato, um ecossistema de aprendizagem? (à luz de A Horta)
No capítulo 3 de A Horta, o conceito de ecossistema é explicado a partir do básico da biologia: diferentes espécies convivendo em um mesmo espaço, interagindo entre si e com o ambiente físico. Elementos vivos (bióticos) e não vivos (abióticos) em relação de interdependência, com fluxo contínuo e equilíbrio dinâmico.
Nem toda horta é ecossistema. Uma horta de monocultura, por exemplo, não é. Falta diversidade, falta interação entre espécies diferentes, falta complexidade viva.
Transportando isso para o nosso mundo:
Temos um ecossistema de aprendizagem quando, em um mesmo espaço social, há interação contínua entre: pessoas, oportunidades de aprendizagem diversas e objetos técnicos/tecnológicos diversos
Não é só estar “no mesmo lugar digital”. É interagir, influenciar, circular, reciclar.
Um catálogo com 26 mil cursos genéricos, por melhor indexados que estejam (e normalmente não estão), é o equivalente a um imenso galpão de sementes largadas no chão, sem solo preparado, sem cuidado, sem projeto de cultivo.
3. Por que 26 mil cursos em um LMS não formam um ecossistema (nem vão formar)
Vamos ser diretos e educados, mas sem rodeios.
3.1. Falta interação estruturada
No ecossistema, elementos se afetam mutuamente: um curso leva a um projeto, que leva a uma comunidade, que leva a uma mudança de prática, que volta a influenciar o desenho dos próximos percursos.
No catálogo lotado, o que temos, na maior parte das vezes, é um conjunto cursos soltos e genéricos, jornadas desconectadas, interação pontual ou quase nula, pouca ou nenhuma retroalimentação para o sistema.
Há conteúdo, mas não há dinâmica ecológica.
3.2. Falta espaço social vivo
A Horta* lembra que ecossistema de aprendizagem acontece em um campo/ espaço social, no sentido de Bourdieu e Simmel, isto é, com relações de poder, interações simbólicas, proximidade física e psicológica, capitais em disputa, habitus em jogo.
Quando reduzimos “aprendizagem” a pessoa + vídeo + quiz, tentamos tirar a educação do campo social e colocá-la em um ato individual de consumo de conteúdo. Ver esse tipo de coisa sendo glorificada em rede social é o equivalente a bater palmas para maluco.
3.3. Falta fluxo contínuo entre pessoas, oportunidades e objetos técnicos
No ecossistema saudável, as pessoas circulam:
entre formatos, entre grupos, entre práticas e reflexões, num fluxo que não termina quando o curso acaba.
Já um catálogo de 26 mil cursos é, por natureza, episódico: entrou → assistiu um pedaço → marcou “concluído” (ou não) → saiu.
Pode haver aprendizado individual? Claro (É raríssimo, pois não se aprende simplesmente apertando o play, de forma passiva). Mas não há, ali, a trama social que sustenta um ecossistema de aprendizagem.
4. A estratégia dos cursos genéricos é pobre, ineficaz e caríssima.
A estratégia de “encher o LMS de cursos genéricos” parte, em geral, de três ilusões:
“Quanto mais, melhor.” Se há variedade e volume, “tudo está coberto”. Na prática, o colaborador se vê diante de um “Netflix de temas soltos”, sem clareza de prioridade, sem ligação clara com sua realidade, sem ajuda para conectar aquilo ao trabalho.
“Se está disponível, as pessoas aprenderão.” Disponibilidade não é garantia de aprendizagem. Aprendizagem não acontece por osmose audiovisual.
“Genérico serve para todos.” Quanto mais genérico, menos enraizado no contexto social concreto da empresa.
Cursos genéricos podem ter seu lugar como apoio, mas não podem ser o núcleo da estratégia de aprendizagem. Quando viram “core”, a organização troca projeto pedagógico por catálogo de prateleira.
5. Qualidade acima de quantidade: da monocultura de cursos à horta bem cuidada
Se seguirmos a metáfora de A Horta, o que precisamos não é de mais semente jogada aleatoriamente, mas de cultivo intencional.
Isso implica:
Menos cursos, melhor desenhados Com base em: ciências da educação, ciências sociais, objetivos claros, público definido, integração com o trabalho e acompanhamento da aplicação.
Mais conexão com o campo social da empresa Programas que conversam com:
Curadoria que poda, não só acumula Ecossistemas saudáveis eliminam excessos. Uma estratégia madura tem coragem de dizer: “Esses 80% de cursos não fazem diferença alguma – e vão sair do ar.”
Fluxo contínuo, não só eventos pontuais.
6. O recado incômodo: os dias do “achismo educacional” estão contados
Falar de ecossistema de aprendizagem é falar de campo social complexo. Não é hobby, não é “brincar de curso”, não é tarefa que qualquer um faz “intuitivamente” porque “já deu treinamento um dia”.
Os dias de fornecedores e times de educação que não dominam ciências da educação e ciências sociais estão contados.
Não porque “teoria é bonita”, mas porque o mundo do trabalho não aguenta mais investir pesado em catálogos gigantes, trilhas genéricas,experiências descoladas da realidade, que não mudam comportamento nem resultado.
Sem base sólida em como as pessoas aprendem (memória, motivação, prática, transferência), como os grupos funcionam (poder, status, habitus, cultura, relações), T&D vira apenas um operador de LMS/LXP (daqueles de acabar com a paciência de qualquer um), comprador de pacote pronto, curador de link.
Agora, quando você leva sua aprendizagem corporativa com base em ciências da educação e sociais, T&D vira arquiteto de ecossistemas, articulador de campos sociais, guardião da qualidade pedagógica, parceiro estratégico de transformação.
7. Check Up
Mini-checklist: você tem um ecossistema ou um catálogo inflado?
Responda “Sim” ou “Não”:
Pessoas, oportunidades de aprendizagem e objetos técnicos interagem continuamente, ou só coexistem?
As iniciativas refletem o campo social real da empresa (relações, poder, cultura, conflitos), ou parecem “de outro planeta”?
Há curadoria ativa, com poda frequente, ou só acumulação de cursos?
Os conteúdos são majoritariamente genéricos ou profundamente conectados ao contexto da organização?
Seu time (e principais fornecedores) dominam conceitos básicos de ciências da educação e ciências sociais ou trabalham mais por intuição e benchmarking?
0 a 2 “Sim” → Você tem um catálogo.
3 a 4 “Sim” → Você tem bons elementos; falta aprofundar ciência e arquitetura.
5 “Sim” → Você está muito mais perto de um ecossistema vivo do que de um “LMS inflado”.
8. Pergunta para você
Se você tivesse que tratar sua plataforma de LMS como uma horta, o que você podaria amanhã (sem dó, nem piedade) para que só ficasse o que realmente nutre o ecossistema de aprendizagem da sua organização?
Responder isso, com honestidade, vale mais do que qualquer pacote novo de mais mil cursos genéricos.
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