T&D360 News - Ed 23

Luz na escuridão

O valor da ciência na aprendizagem corporativa.

Gustavo Brito

·

10 de nov. de 2025

Nos últimos anos, tenho acompanhado com atenção (e uma dose crescente de inquietação) o entusiasmo com que o mercado de T&D abraça novas tendências. A cada trimestre, surgem relatórios robustos, infográficos coloridos e previsões sobre o futuro do trabalho. Termos como “upskilling”, “reskilling”, “human skills”, “AI-readiness” e “learning agility” se tornaram quase mantras corporativos. Mas há algo profundamente desconfortável nesse cenário: estamos falando cada vez mais sobre o que ensinar, e cada vez menos sobre como as pessoas realmente aprendem.

Recentemente, li uma análise provocadora da Lauren Waldman , que escancarou uma contradição que muitos de nós preferimos ignorar. Ela examinou seis dos maiores relatórios globais de L&D de 2025 — LinkedIn Learning, McKinsey, Udemy, CompTIA, Thirst e CIPD. Todos eles apontam para a importância crescente das chamadas “soft skills” e para a inevitabilidade de um ambiente de trabalho moldado pela inteligência artificial. Mas nenhum deles — absolutamente nenhum — menciona a ciência da aprendizagem. Nenhuma referência a como o cérebro aprende, memoriza, muda comportamentos ou forma hábitos. Nenhuma menção à neurociência, à psicologia cognitiva, pedagogia. Nada.

Isso deveria nos preocupar profundamente.

Estamos construindo castelos de conteúdo sobre fundações frágeis. Investimos milhões em plataformas, trilhas, catálogos, certificações. Mas ignoramos a pergunta mais fundamental de todas: o que faz com que a educação resulte em aprendizagem de fato? O que transforma uma experiência em memória de longo prazo? O que permite que uma nova habilidade se torne um comportamento habitual? O que faz com que um insight se transforme em ação?

É como se estivéssemos montando um tabuleiro de xadrez com peças reluzentes, mas sem entender as regras do jogo.

O paradoxo é cruel: nunca se falou tanto sobre aprendizagem nas organizações, e nunca se aprendeu tão pouco de forma significativa. Criamos experiências que ninguém lembra. Programas de habilidades que não se transferem para o dia a dia. Iniciativas de transformação que não transformam. E seguimos confundindo adoção de tendências com progresso real.

O problema não está na tecnologia. Ela é, sim, uma aliada poderosa. O problema está na superficialidade com que a utilizamos. A IA pode nos ajudar a personalizar trilhas, identificar gaps, sugerir conteúdos. Mas ela não substitui o entendimento profundo de como o ser humano aprende. E, mais importante ainda, não substitui a sensibilidade necessária para desenhar experiências que toquem, desafiem e transformem.

Aprender não é consumir informação. É um processo vivo, emocional, contextual. Envolve desconforto, repetição, erro, reflexão, tempo. Envolve o corpo, o cérebro, o ambiente, a cultura. Envolve, acima de tudo, intenção.

Se queremos que o upskilling e o reskilling sejam mais do que slogans, precisamos parar de tratar a aprendizagem como um produto e começar a tratá-la como um processo humano. Isso significa ir além da curadoria de conteúdo. Significa desenhar experiências que respeitem os princípios da neurociência e da psicologia do comportamento. Significa criar ambientes onde o erro não seja punido, mas celebrado como parte do caminho. Significa medir não apenas o que foi aprendido, mas o que foi aplicado. Significa, enfim, colocar o ser humano (com toda a sua complexidade) no centro da equação e a aprendizagem no centro do design.

A boa notícia é que já temos o conhecimento necessário para fazer isso. A ciência da aprendizagem não é nova. O que falta é coragem para aplicá-la. Coragem para questionar métricas vazias. Coragem para dizer que menos pode ser mais. Coragem para desacelerar e, assim, aprender de verdade.

Enquanto o mercado corre atrás da próxima buzzword, talvez o verdadeiro diferencial competitivo esteja em algo mais simples — e mais difícil: entender como as pessoas realmente aprendem. E, a partir daí, reconstruir tudo.

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